Crônicas de um bar – 2º Capítulo.

Obviamente, como toda taberneira, tenho inúmeras histórias para contar. Provavelmente, algumas você não vai querer saber, mas muitas são interessantes e engraçadas. Agora tenho algo que preste: Crônicas! Com certeza vai ser mais uma merda que vou fazer. Mas, vamos! Pegue seu banquinho, compre sua garrafa de gim (pague antes, por favor) e sinta-se à vontade para xingar os “pilhos da futa” que sempre aparecem por aqui, a taberna “Bons Sonhos”.

Parte 2.

Ahhh,  as tardes de outono! Nesses dias, é tão gratificante ver

o grande salgueiro choroso que temos ao lado da taberna balançar com os ventos frios e levemente cortantes. A maioria do pessoal do vilarejo se apresenta aqui, na minha taberna, nessa época do ano. Tenho bebidas quentes para todos, até para algumas crianças que aparecem periodicamente.  Todos adoram o café  que eu mesma faço – nem sei por quê…! Até parece que é a melhor coisa do mundo…! -, e alguns gatos pingados se arriscam a tomar as bebidas mais fortes.

Meus dedos doiam quando coloquei um copo de bebida em cima do balcão. Jack Od’Onnel estava lá, estagnado, olhando pro meu rosto (ou pros meus seios, mas não faz diferença, já que não parecia estar vendo nada).

– Boa tarde. – Falei, com um sorriso alegre e convidativo. As pessoas compram mais quando estamos alegres, e é com isso que estou contando para ter bons lucros.

– Para você, morena. – Jack bufou. – Minha mulher me deu um pé na bunda.

– An? – Olhei-o, confusa. Por que todo mundo acha que taberneira é confidente? – E por que alguém deixaria alguém tão… – pensei nas palavras, tentando achar alguma que prestasse. – simpático quanto você?

– Ela diz que vivo fora, que bebo demais, que fumo demais, que sou ranziza demais… – Ele bebeu o copo inteiro num gole, apenas, e fez uma careta.

– Isso é verdade?

– Tenho cara de quem tá mentindo!? – Ele gritou. A moça tinha razão, ele era ranzinza sim.

Acho engraçada a cara dele. É mandão, não aceita desaforo, fala palavrão, fuma feito uma chaminé e bebe feito um peixe, mas, vendo-o assim, com um bico de criança mimada e olhos marejados, o faz ter uma carinha cômica, mas ao mesmo tempo cortante e esmagadora. Quero dizer, se um macho man como ele se abala, imagina nós, reles mortais?

Enquanto eu e o Sr. Minha-mulher-me-abandonou conversávamos e pensávamos em como trazer a mulher de volta pra ela, uma mulher loira, despenteada, entrou no saloon. Pensei: Deve ser a mulher dele, gritando pra ele voltar, dizendo que o queria de volta. Mas não era.

Ela estava caindo, quase desmaiando. Seu vestido marrom estava sujo de terra, assim como os cabelos. Seu braço direito estava cortado do pulso ao cotovelo, espalhando sangue pelo vestido da mulher e pelo chão de madeira da taberna. Como é possível? Todos tem que pensar que taberna é centro pra gente necessitada? Vem mendigo, bebêrrão, acidentado, tudo que precisa de tratamento pra suar o couro da neguinha aqui!

A primeira coisa que fiz foi sair de trás do meu balcão e correr até a mulher, segurando-a exatamente no momento em que ela quase rachou a cara no chão.  A virei e a coloquei deitado com a barriga pra cima. Seu rosto estava sangrando também, e seus olhos saindo de foco.

– O que houve, fofa? – Sheila estava do meu lado. O rabo-de-cavalo louro caindo por cima do ombro a deixava mais bonita, e, apesar da situação, os homens atrás dela quase caiam da cadeira para poder ver melhor alguma coisa por baixo da minissaia azul que usava – e que eu já disse que achava inapropriada milhares de vezes.

– E-ele…! – A mulher arfava. – Vo-voltou…! – Sua respiração estava rápida, apesar de aparentar estar muito cansada.

– Quem, mulher? – Bianca estava do meu outro lado. Seus olhos grandes e negros piscavam meio desesperados, e os dedos da moça tremiam enquando tentava limpar o sangue da loura caida.

– Headless Oscar Santoro!! – Ela gritou, tossindo logo depois, parecendo sentir uma dor extrema. Algum tempo depois, ela se acalmou.

Esse nome não era estranho para mim. Sabia que tinha ouvido esse nome em algum lugar – quando se é taberneira, você escuta muitas coisas diferentes… boas, ruins e péssimas -, mas minha memória sempre foi péssima, então nunca lembro o que eu escuto… Mas… esse nome! Eu tinha certeza que eu o já tinha ouvido… e estava na ala das notícias péssimas.

– Quem é esse homem? – Jack apareceu não sei de onde, ainda com o nariz inchado e olhos vermelhos.

– Ele… n-não é um homem… – Ela começou a chorar, tremendo. – Parece um monstro… um monstro horrível…! – A menina começou a apagar, literalmente. Começou a ficar pálida, e mais pálida ainda.

– Ei…! – A fiz abrir os olhos. – Qual o seu nome?

– É… – A respiração dela foi diminuindo… diminuindo… – Zanya.

E então ela simplesmente sumiu.

Isso mesmo. Desapareceu.

Um pózinho estranho ficou nas minhas mãos, enquando eu a segurava. Ah! O que diabos eu tenho que só atraio coisa ruim!? Olhei para Jack, assustada. O vilarejo estava crescendo à medida que o tempo passava… Mas com o crescimento, também crescia as coisas ruins.

Fico só pensando no que ela queria dizer com “ele não é um homem”…

_*_

Veja também: Crônicas de um bar – 1º Capítulo.

~ por Taberneira em Abril 16, 2009.

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